História de jacarepaguá

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O topônimo Jacarepaguá é derivado de três palavras do tupi-guarani: yakare (jacaré), upa (lagoa) e guá (baixa) ou lagoa baixa dos jacarés. No início da colonização da Região, as lagoas que existiam entre o Vale do Marangá e o mar eram repletas de jacarés.
Até o início do século XX, a Região hoje conhecida por Jacarepaguá era chamada de Vale do Marangá, palavra indígena que significa campo ou lugar de batalha. É provável que o nome se deva às lutas entre portugueses e índios, ocorridas no início da colonização, onde hoje existe a Praça Seca. Mas uma outra hipótese, preferida pelos historiadores, refere-se à frustrada invasão francesa comandada pelo corsário Jean François Duclerc, no início do século XVIII.

Em 16 de agosto de 1710, uma esquadra francesa chegava à vista do Rio, numa expedição enviada por Luis XIV contra o Brasil. Repelidos pelos canhões da fortaleza de Sta. Cruz, a esquadra dos franceses desistiu de forçar a entrada na baía. Rechaçados também na Ilha Grande, conseguiram desembarcar na praia de Guaratiba em 11 de setembro. Liderados por Duclerc, dali os franceses iniciaram sua marcha para o Centro, na tentativa de invadir a Cidade, atravessando a Região por um caminho transformado na Rua Cândido Benício, onde possivelmente encontraram resistência, e através de uma trilha que tudo indica ser hoje a Estrada Grajaú-Jacarepaguá.

Um dos indícios que podem justificar essa hipótese foi a descoberta de canhões franceses, durante a construção da estrada, já em meados do século XX. Se durante o percurso encontraram resistência, esta foi superada, pois em 19 de setembro atacaram a cidade, sendo rechaçados pelos homens que guarneciam o morro do Castelo. Atacados por tropas arregimentadas pelo governador Francisco de Castro Morais, os franceses renderam-se, caindo prisioneiro Duclerc.

A idéia de criar no Rio de Janeiro uma colônia francesa era antiga, antecedendo em muito a tentativa de François Duclerc e a própria fundação da Cidade. Nicolas Durand de Villegaignon, apoiado por Henrique II, rei da França (1547-1559), já havia desembarcado aqui quase um século e meio antes, em novembro de 1555, quando os franceses foram senhores do Rio de Janeiro durante quatro anos e três meses. Mem de Sá combateu-os com uma esquadra enviada da metrópole, por ordem real, desalojando os invasores e arrasando suas fortificações.

Quando Estácio de Sá chegou, em fevereiro de 1564, incumbido de estabelecer as bases de uma colonização sistemática, encontrou a Cidade novamente dominada, sendo impossível estabelecer-se. Buscando reforços em São Vicente, desembarcou em março de 1565, subjugando os franceses e índios hostis. Mas as dificuldades em consolidar a destruição das forças inimigas e cumprir sua missão forçaram-no a um pedido de ajuda.

Mem de Sá veio em seu auxílio, à frente de tropas organizadas na Bahia, derrotando novamente os franceses. Nessa batalha, travada em 20 de janeiro de 1567, data escolhida por ser o Dia de São Sebastião, seu sobrinho Estácio de Sá foi ferido durante o combate por uma flechada no rosto, morrendo pouco mais tarde. Após expulsar os invasores, Mem de Sá nomeou outro sobrinho, Salvador Correia de Sá, capitão e governador (1567-1572) da Cidade, recebendo o mesmo, como benefício da guerra, as terras que hoje constituem o Município.

Salvador Correia de Sá doou sesmarias no Rio de Janeiro para Jerônimo Fernandes e Julião Rangel de Macedo, portugueses que se haviam destacado na luta contra os franceses. Nenhum dos dois, entretanto, desenvolveu qualquer atividade econômica nos vastos territórios recebidos. A ocupação territorial de Jacarepaguá só começou no final do século XVI, quando o governador Salvador Correia de Sá doou essas mesmas sesmarias a seus filhos (1594), que as reivindicaram em petição ao pai-governador, no final de seu último período de governo (1578-1598), alegando que após trinta anos as terras ainda não haviam sido cultivadas.

A sesmaria de Gonçalo Correia de Sá compreendia terras que abrangiam uma parte da Barra da Tijuca e dos atuais bairros da Freguesia, Taquara e Camorim, indo até Campinho. As terras de Martim cobriam um vasto território a partir de Camorim, englobando Vargem Pequena e Vargem Grande e estendendo-se até o Recreio dos Bandeirantes e a extensa faixa litorânea.

Gonçalo Correia de Sá ocupou logo sua sesmaria, fundando engenhos de açúcar e arrendando parte das suas propriedades a terceiros, aproveitando suas terras, que eram economicamente viáveis. Enquanto seus domínios se transformavam rapidamente em povoações, seu irmão Martim, cujas terras eram alagadas e pantanosas, formadas predominantemente por grandes areais, inviabilizando as restritas atividades econômicas da época, dedicava-se à sua carreira política.

Martim Correia de Sá foi por três vezes governador da capitania do Rio de Janeiro (1602-1608, 1618-1620 e 1623-1630), o que explica em parte por que a Região Jacarepaguá, ao desenvolver desde o início suas atividades econômicas, efetivou sua ocupação de forma mais consistente, enquanto a Região Barra da Tijuca permanecia desocupada por quase quatro séculos.

Em 1616, nas imediações do Engenho d Água, surgiu o primeiro núcleo de ocupação de Jacarepaguá, no lugar também conhecido como Porta d Água, que hoje chama-se Largo da Freguesia. Com o correr do tempo o local e suas imediações ficaram conhecidos como Jacarepaguá, em virtude da proximidade com a Lagoa dos Jacarés. Com a ocupação se acentuando, uma parte das terras foi desmembrada em foros, para incentivar seu desenvolvimento.

Em uma das novas propriedades que floresceram, o dono, Padre Manuel de Araújo, ergueu no alto de um penhasco, chamado Pedra do Galo, a Capela de Nossa Senhora da Pena. Com a crescente ocupação da sua propriedade e constatando que suas atividades e desenvolvimento econômico locais estavam praticamente assegurados, o padre propôs a emancipação do lugar, efetivada em 6 de março de 1661. Foi criada, assim, a Freguesia de Nossa Senhora do Loreto de Jacarepaguá, a quarta da Cidade, separada da antiga Freguesia de Irajá. Em 1664 o padre construiu nela a Igreja-Matriz, com o mesmo nome da Capela.

Em 1625, a filha de Gonçalo Correia de Sá, d. Vitória de Sá e Benevides, neta do governador Salvador Correia de Sá, recebeu como herança as terras que seu pai havia recebido do avô. Em 1628, ela casou-se com o governador-geral do Paraguai, o fidalgo espanhol d. Luis Cespede Xeria, que recebeu parte da sesmaria como dote. Em 1667, d. Vitória doou aos beneditinos, por testamento, a maior parte da área que hoje pertence à Barra da Tijuca.

Já o general Salvador Correia de Sá e Benevides, filho de Martim e primo de dona Vitória, comprou as terras que pertenciam aos foreiros e ao marido de d. Vitória, tornando-se assim o proprietário quase absoluto do território que hoje compõe Jacarepaguá, inclusive o futuramente denominado Vale do Marangá. Logo após a compra, ele passou a morar na casa-grande do Engenho d Água e, a partir daí, a região do Vale do Maranguá começou a progredir.

Como general, Salvador Correia de Sá e Benevides (1601-1688) lutou contra os holandeses em Angola, defendendo os interesses portugueses. Foi governador do Rio de Janeiro por três períodos (1637-1642, 1648-1649 e 1659-1660), contribuindo com inúmeras melhorias e levando grande desenvolvimento à Região, ao vender parte de suas terras em Jacarepaguá e incentivar seus proprietários a fundar novos engenhos.

O general faleceu em Lisboa em 1688, deixando suas terras para o filho, Martim Correia de Sá e Benevides (neto de Martim Correia de Sá), que se tornou o primeiro Visconde de Asseca e Alcaide-Mór do Rio de Janeiro. Dessa linhagem nobre dos Assecas, o quarto Visconde – nascido em 1698 e falecido em 1777 – foi o responsável pelos primeiros vestígios de povoamento mais efetivos em torno da Praça Seca (corruptela de Praça Asseca, ou PraçAsseca), dando origem a uma configuração mais urbana para a Região.

A viagem para Jacarepaguá, no início século XVII, praticamente só era possível pelo mar, através da Barra da Tijuca e suas lagoas. Os que se dirigiam de lá para o centro da Cidade dependiam das condições do tempo e de embarcações de grande porte para enfrentar mar aberto até a distante Freguesia de São Sebastião do Rio de Janeiro. Em função da necessidade de um escoamento regular para a produção das fazendas e engenhos instalados na Região, foram sendo abertos caminhos entre as fazendas e em torno do Vale do Marangá, dando origem aos atuais logradouros.

Para chegar à Cidade e levar os produtos oriundos do cultivo da cana-de-açúcar e da produção de carne bovina, os moradores de Jacarepaguá tinham que atravessar a Estrada da Fazenda dos Jesuítas, posteriormente Estrada Real da Fazenda de Santa Cruz, que ia até São Cristóvão e se interligava com outros caminhos e vias fluviais que chegavam até o centro da Cidade.

Fazendeiros levando suas mercadorias atravessavam o Vale do Marangá, atual região da Praça Seca, dirigindo-se ao pequeno porto fluvial de Irajá, que deu origem à Freguesia de Irajá, de onde seguiam em pequenas embarcações (faluas) pelo pequeno percurso do rio Irajá (3 km) até a Baía de Guanabara, chegando ao cais da atual Praça XV e a outros atracadouros da Cidade.

Outra família importante para o desenvolvimento da Região foi a de Francisco Teles Barreto de Meneses (1625-1679), filho de Diogo Lobo Teles de Meneses. Ele adquiriu a Fazenda do Engenho da Taquara em 1658. Durante as décadas seguintes, os negócios da família expandiram-se com a compra de novas fazendas e engenhos e, ao final do século, os Teles de Meneses eram os maiores proprietários de Jacarepaguá. A Região ganhou tal importância no período colonial que passou a ser conhecida como Planície dos onze engenhos.

Em meados do século XVIII, foi aberto um caminho para ligar a antiga Estrada Real de Santa Cruz à Estrada de Jacarepaguá. O objetivo era encurtar o percurso entre o Engenho de Fora, dos descendentes dos Sá, e as terras dos Magalhães, que margeavam a Estrada Real de Santa Cruz. Foi esse caminho que deu origem à atual Estrada Intendente Magalhães. Com o falecimento do quarto Visconde de Asseca, a partir de 1777, a área passou à família dos Teles de Meneses, ancestrais do Barão de Taquara.

Área de confluência de antigos caminhos, a Praça Seca foi um marco histórico urbano da Cidade, pois foi aí que Jacarepaguá cresceu, longe do centro de decisões do governo colonial. E apesar de distante do núcleo central, considerando-se que a Cidade contava com apenas 51.011 habitantes em 1779, excluídos os moradores das chácaras, a Região apresentava alguns números significativos para o final do século XVIII: cerca de 250 residências, três lojas de tecidos, 70 vendas de produtos variados e cinco açougues, abrigando uma população de aproximadamente 2.000 pessoas.

Cabe lembrar que na época imperial as relações econômicas e as características do poder apresentavam quadro bem diferente do período colonial, quando o poder era sustentado pela monocultura da cana-de-açúcar, pelo comércio e exportação de produtos primários e pelo poder religioso – posteriormente, pelas exportações das riquezas minerais de Minas Gerais, além do já incipiente comércio interno.

A chegada de D. João VI e sua Corte transforma o Rio na capital do reinado português. O meio urbano se consolida definitivamente através de sucessivas ações como a abertura dos portos às nações amigas, a vinda da Missão Francesa e a preocupação com o ensino, entre outras. Começa a importação de produtos variados da Europa e o café surge como principal atividade econômica interna, produto de exportação que gerava as divisas necessárias ao crescente comércio com o exterior. Acompanhando a tendência, a partir de 1831 Jacarepaguá transforma seus antigos engenhos em fazendas de lavoura de café.

Na metade do século XIX, a região já totalizava mais de 7000 habitantes e quase 5000 escravos, o maior contingente da Cidade. Os núcleos de ocupação territoriais que se desenvolveram no Vale do Marangá, principalmente na confluência dos caminhos e em volta das fazendas, começavam a assumir feições urbanas, com grandes residências, ruas bem definidas e intenso comércio interno.

Um novo proprietário de terras, Francisco Pinto da Fonseca Teles, futuro Barão de Taquara, com apenas 23 anos assume o controle dos principais engenhos: Taquara, d Água e de Fora. Seu pai fora guarda-roupa da Corte e gozava de intimidade e amizade com D. Pedro II. A Fazenda do Taquara hospedou o Imperador e a esposa em muitas ocasiões. Em 21 de outubro de 1882, Fonseca Teles recebeu o título de Barão de Taquara, por sua atuação na Guerra do Paraguai, pelos serviços prestados à Coroa e por sua dedicação ao povo e à Região de Jacarepaguá.

Os meios de transporte para a Região, na época, ainda eram os mesmos usados por seus ancestrais dos tempos coloniais: carruagens simples, carroças, diligências e montarias a cavalo. Em 1890, o Barão de Taquara fez o primeiro fracionamento de terrenos em lotes menores e com arruamento definido. A partir daí, a antiga Estrada de Jacarepaguá passou a ser conhecida como Cândido Benício, homenagem ao médico influente na Região e político mais votado nas eleições legislativas municipais de 1892.

Benício era grande amigo do Barão e residia naquele logradouro. O loteamento trouxe muitas melhorias urbanas para a Região, levou ao traçado de várias ruas e à transformação do antigo Largo dos Asseca numa grande praça. Entre 1906 e 1909, outro empreendimento do Barão de Taquara ampliou o processo de urbanização, em área bem maior e com projeto de arruamento do engº. Bernardino Bastos. Mas até 1920 as ruas locais ainda não tinham pavimentação, mesmo com a linha de bondes funcionando desde o final do século XIX.

Em 1927 a Fazenda do Valqueire, desmembrada das terras do antigo Engenho de Fora – herdadas por Geremário Dantas de seu bisavô, o foreiro e plantador de café Ludovico Teles Barbosa – foi loteada, dando origem ao atual bairro de Vila Valqueire. Além de advogado, jornalista e autor de livros sobre política e cultura do café, Geremário Dantas foi um político e empresário de renome na Região, até a sua morte, em 1935. A rua e o terreno do tradicional Externato Geremário Dantas, doado às Irmãs de Nossa Senhora do Salgado após a sua morte, atestam sua importância para o crescimento da Região. Curioso também é que quase todos os grandes homens e mulheres que tiveram importância histórica para Jacarepaguá têm a mesma origem familiar.

A transformação de uma ocupação tipicamente rural em urbana também se realizou através do papel exercido por outro personagem, Gastão Taveira, que possuía muitos terrenos na Região. Em 1901, por sua intervenção, a Praça Seca foi aterrada e urbanizada, tornando-se mais um foco de atração para o adensamento populacional. A partir de 1910, Taveira inicia a construção de casas e vilas inteiras destinadas à locação, acelerando o processo de ocupação.

A atual rua Cândido Benício, que atravessava o Vale do Marangá passando pelo meio do histórico Largo dos Asseca, constituiu-se sempre no principal eixo de ligação entre os primeiros núcleos, sendo também o mais importante acesso ao Centro. A partir do início do século XX, essa via foi a principal responsável pela progressiva transformação, de rural para urbana, da Região.

Compreendida entre serras e lagoas e palco de episódios históricos, a Região Jacarepaguá tem, portanto, uma história singular entre as 12 regiões da Cidade. Reunindo um dos maiores acervos arquitetônicos do período colonial do Rio de Janeiro concentrados em apenas um bairro, alguns de seus templos religiosos são monumentos históricos que remontam ao século XVII.

Datam dessa época igrejas, engenhos e fazendas como as dos Fonseca Teles, além do Aqueduto do Engenho Novo. E tendo se desenvolvido desde a época colonial em um local bastante distante do Centro, a Região não teve como vetor de seu crescimento qualquer sistema de transportes que facilitasse seu acesso a outras direções, como a maioria dos bairros do Rio de Janeiro. Seu desenvolvimento portanto está ligado não apenas à natureza empreendedora de grandes homens que foram proprietários de terras e moradores, mas também ao pioneirismo e iniciativa de seus antigos desbravadores.

 

-Julianna Firme

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Uma resposta »

  1. Foi muito importante saber dessa história desde os primórdios. Estou fazendo um curso de Guia de Turismo e essas informações contribuem para compor o contexto da história de Jacarepaguá.

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